quarta-feira, 29 de abril de 2020



 
APENAS ALGUNS SEGUNDOS NO CÉU!
Publicado no jornal “O Diário” em duas partes, em ...

       Em Março de 2003, com 61 anos de idade, tive uma experiência estranha, interessante e muito sui-generis para mim. Com Anair, eu regressava ao Brasil de uma viagem aos Estados Unidos num voo sem escalas, da American Airlines, de Miami ao Rio de Janeiro, e em um determinado momento, quando já sobrevoamos o território do Brasil, senti uma dor no peito. Já tendo sofrido um infarto, procurei o comissário de bordo para pedir algum remédio para o coração, mas fui informado que só um médico poderia ter acesso à caixa de remédios de bordo. Então pedi que solicitasse ao comandante verificar se, entre os passageiros, haveria algum médico. Para minha sorte havia uma cardiologista que regressava ao Brasil (podem imaginar a sorte de ter uma cardiologista a bordo), depois de ter acompanhado um paciente aos Estados Unidos.
  
       Fui examinado pela médica (lamentavelmente não lhe perguntei seu nome) e tomei os remédios que ela levava em sua bolsa. Minha pressão sanguínea estava bem elevada e me levaram para primeira classe e me colocaram deitado. Passado alguns minutos a médica me perguntou como me sentia, mas a dor não tinha melhorado. Em vista disso ela informou ao capitão que eu não chegaria vivo no Rio de Janeiro e recomendou que o avião fizesse um pouso de emergência em Brasília, que estava próximo. O café da manhã já estava sendo servido, e escutei o comandante informando que iriam parar o serviço para fazer um pouso de emergência em Brasília para deixar um passageiro que se sentia mal (esse passageiro era eu).

      Lembro-me bem desses momentos de angústia. Desci do avião numa maca, indo direto para uma ambulância que me esperava ao pé da escada do avião e fui levado às pressas para um hospital local, onde fui direto para a sala de cirurgia e submetido a uma angioplastia.

      Essa seria a segunda angioplastia que eu fazia. Durante o processo estive acordado (pelo menos eu pensava assim) e podia ver pelos monitores o que estava sendo feito dentro de minhas artérias para desbloqueá-las. Meus olhos estavam fixos na tela do monitor e me lembro de ter ouvido um grito. Depois do procedimento fui levado para a UTI onde permaneci por dois dias, e de vez em quando ia me lembrando de ter estado num lugar com uma forte neblina, como se estivesse no meio das nuvens, onde me sentia maravilhosamente bem.

      Num determinado momento comecei a ver, através da névoa, a uns 6 metros de distância e em torno de mim, rostos de pessoas vestidas de branco que eu não conhecia. A felicidade que eu sentia se transformou em preocupação ao perceber que me olhavam com cara amarrada. Na minha mente veio a pergunta: "Porque me olham assim, pois nada fiz de errado?". Nisso, um homem, vestido com túnica branca, mais baixo que eu, mais ou menos careca, com cara séria, caminhou em minha direção e chagando à minha frente me deu um empurrão com ambas as mãos e gritei: "Aiiiiii" (o grito que me lembrava de ter ouvido enquanto olhava para o monitor). Quando deixei a UTI, mencionei à médica o descrito acima e ela me disse que para ela isso seria uma experiência extracorpórea que eu havia experimentado. Aí ela me disse que tive uma parada cardíaca por 36 segundos e que fui revivido com choque elétrico.
 
       Eu sou católico e siga o ensinamento da Igreja, e eu nunca pensei que eu iria passar por essa experiência. Com esta experiência, que comecei a tentar lembrar as características da pessoa que me deu o soco – desde que ele era careca e meu pai também era careca, eu tentei melhorar o foco em seu rosto para ver se ele era meu pai. Mas eu não lograva ver o rosto do meu pai.
Em outubro de 2003, eu fui a Roma para visitar amigos (eu morava em Roma há 18 anos ao trabalhar para as Nações Unidas). Lá eu visitei a Basílica Regina Apostolorum e o Museu do fundador dos Paulinos, Dom Giacomo Alberione (Dom Tiago Alberione, em português), que tinha sido Beatificado em abril de 2003.

        Lá eu visitei o lugar onde ele residiu - seu escritório, seu quarto e uma sala com lembranças que recebeu durante suas viagens, que estavam protegidos dentro de vitrines de vidro. Havia outras duas vitrines com manequins de alfaiate (manequins sem cabeça) com suas batinas sacerdotais. Numa vitrine haviam duas batinas, uma preta e outra cinza, e na ultima vitrine uma unica batina branca. E quando eu olhei para essa batina, eu vi que Dom Alberione a estava vestido dela e sorria e acenava para mim. Então eu reconheci que ele era a pessoa que me deu aquele soco, que me enviou de voltar a esse mundo. Eu comecei a chorar e lágrimas abundantemente saindo de meus olhos. Minha esposa vindo logo atrás de mim com a freira, me vendo chorando pensou que eu não estava me sentindo bem, e eu lhe disse que tinha visto a Dom Alberione.
 
       Saindo da área do museu, havia um corredor com uma mesa com lembranças de sua beatificação onde eu pequei um folheto e um santinho com a foto de Dom Alberione. Quando eu olhava  para a foto, eu ouvi uma voz perto do meu ouvido, que me dizia em italiano: "Nós conseguimos!" Ainda tenho essa experiência gravada em minha mente como se tivesse cabado de acontecer. Com efeito, me lembro de tudo muito bem, e como eu me sentia feliz naquele lugar. E foram apenas 36 segundos (do nosso tempo e não do tempo de Deus) que tive a parada cardíaca. Minha experiência de estar em outro lugar foi de estar um lugar nublado e me senti maravilhosamente bem, e posso imaginar como deverá ser maravilhoso estar num lugar com céu azul claro e brilhante. Desde então em rezo todos os dias e noites, agradecendo a Dom Alberione por ter me empurrado de volta para a Terra.

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